O que nos ensina o Caminho?

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Em 9 dias e com mais de 240 quilómetros nas pernas, há sentimentos que sem dar conta se transformaram dia após dia e alguns deles em que só reflectimos com o passar do tempo.

O ano passado (2016) resolvi fazer o Caminho de Santiago, sozinho, sim todas as pessoas a quem eu ia desvendando apelidavam-me de, no mínimo, maluco. Certo é que meti “pernas ao caminho” e foi uma das melhores “experiências” que tive na vida.

Sem nos darmos conta, a caminhada diária é de cerca de oito horas e que nos transporta a uma realidade paralela, em que a nossa jornada é construída do zero. Onde ninguém sabe quem nos somos , o que fazemos, nem mesmo como nos vestimos. Um pé atrás do outro, um dia atrás do outro, poucas decisões a serem feitas – acordar, caminhar, comer, dormir. E, aos poucos, o nosso corpo e a nossa cabeça entram numa sintonia inédita, que muda o nosso olhar, a nossa resistência, e a nossa percepção dos espaços e do tempo.

Ao terminar o percurso e olhar para trás, vi que o caminho é mesmo uma metáfora da vida. Dos vários ensinamentos, escrevi apenas aqueles que, até o momento, consegui decifrar.

A Generosidade aquece a vida

Os Peregrinos são, por definição, amáveis e gentis. Sempre que passam, desejam “Buen camino!”. Sempre que encontram alguém a cuidar dos pés, oferecem ajuda. Abrem sempre um sorriso para quem chega para dividir a mesa. Em cinco minutos, fazemos amigos capazes de te ceder uma cama, oferecer os seus últimos anti-inflamatórios, diminuir o passo para te acompanhar por perceber que o teu dia está a ser dificil. No caminho, é a predisposição em ser generosos que nos rodeia de amigos e nos faz sentir queridos, protegidos e sempre acompanhados.

Adaptamo-nos , sempre

Eu pensava que não conseguia caminhar sob chuva, que não ia suportar os albergues, que ia sentir dor nas costas por carregar uma mochila de 8 kg durante dia todo. Mas vi que toda a gente se adapta. Ao calor, ao frio, à chuva, ao vento. Adaptamo-nos a uma nova comida, a uma cama diferente a cada noite, aos roncos dos peregrinos cansados. Adaptamo-nos às pedras do caminho, ao asfalto quente, à terra com barro encharcado. O que parecia difícil no começo logo torna-se rotina fácil de ser ultrapassada.

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A cabeça está no comando

Nos dias em que a minha meta era caminhar uns 20 km, os últimos quilómetros eram muito difíceis. Nos dias em que tinha de caminhar 30 km, 20 eram num instante e os últimos cinco pareciam intermináveis. Cheguei a caminhar 40 km num dia, e adivinhem? Os 30 primeiros passaram sem eu sentir, e só nos últimos comecei a sentir sinais de cansaço. Não importa a quantidade: é a cabeça quem determina os limites. O corpo é forte e só chia quando ela avisa: “Ei, já estás quase a acabar. Podes relaxar.”

As suas escolhas criam o seu caminho

Havia algumas escolhas a fazer: de onde vou começar? Vou dormir em albergues ou pensões? Andar em grupo ou fazer sozinho? Sair cedo para aproveitar a cidade de destino ou ir sem pressa para chegar, aproveitando as pequenas surpresas do percurso? O caminho é feito de escolhas. Nem mais certas nem mais erradas. Mas determinantes e, muitas vezes, irreversíveis. Estas escolhas fazem com que o caminho seja só meu.

Você carrega o peso dos seus medos

Para ter um caminho tranquilo, é preciso levar uma mochila leve. E o que deixa a mochila pesada são nossos medos. Medo de ficar doente, de passar frio, de ter fome. E aí a mochila enche-se de coisas desnecessárias. Há farmácias, lojas, vendas pelo caminho. Encher a mochila é sofrer por antecipação e tornar a etapa muito mais penosa.

Somos todos iguais

Na mochila cabem poucas coisas – só as essenciais. Todos usam as mesmas roupas, dormem em lugares simples, comem nos pequenos bares/restaurantes que encontram pelo caminho. Não é possível fazer qualquer distinção entre classes sociais, raças ou credos. No caminho, resumidos à nossa essência, somos todos iguais.

O importante não é chegar, é caminhar

Chegar a Santiago não é a melhor parte, nem o dia mais importante da viagem: é só uma consequência inevitável. O desfecho do qual não é possível fugir (e quem não escolheria caminhar mais um pouco?). Mais importante que chegar é aproveitar cada dia do caminho. A nostalgia de chegar ao final é inevitável.

Buen camino!

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6 Replies to “O que nos ensina o Caminho?”

  1. Revejo-me nas tuas palavras… em 2014 fiz o meu primeiro caminho e desde aí o caminho nunca mais saiu de mim, já lá voltei, por outros trilhos, mas no final tudo se resume ao mesmo, dias de paz, de ensinamentos, de partilha. Perceber que com tão pouco podemos sentir coração e alma cheios.
    Bom caminho, peregrino.

    1. Acima de tudo, isso mesmo, “dias de paz, de ensinamentos, de partilha” . Continuo a acreditar que é uma sensação indescritível.

      Bom caminho! 😉

  2. Ola… adorei seu relato. Para mim que sou Poeta, foi um dos textos mais poéticos que já li sobre o caminho. fiz por duas vezes e vou repetir e 2018. espero usar um pouco de seus ensinamentos nas passadas de 20 30 ou.. nao.. 40 e mais nunca mais.. vou encurtar distancias e aumentar os dias. de 30 para 33. tá bom tamanho…. TFA esiopoeta

  3. Também me revi em muito do seu caminho. Fiz em 2016 e foi avassalador, a sensação de liberdade, de abnegação e auto-suficiência, é uma experiência única e que recomendo!

  4. Porque me revi e vivi contigo o caminho…uma abraço ao amigo Gigante…e um dia…vamos refazer um outro caminho

    1. Tenho a certeza que sim 😉

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